segunda-feira, 27 de setembro de 2010


Por todos os lados
você vê placas de plástico
que ordenam
coma, coma, coma!
E você come
devora mais e mais
quilos, litros, metros
de plástico vazio
até que o plástico
come você

terça-feira, 7 de setembro de 2010

Um na multidão





Esta será uma série de crônicas cujos protagonistas são pessoas, simplesmente pessoas. Especialmente aquelas mais comuns.




Chuva. É barulho de chuva. Será que eu vou conseguir levantar? Começo a sentir os dedos das mãos. Sim, já posso mexê-los. Passo a mão no rosto, esfrego os olhos, a remela tá ressecada. Minhas pernas, onde estão? Ah...começo a sentir vida nelas, a dor nas canelas voltou. Passar o dia em pé, na loucura do centro da cidade, debaixo de sol quente e dizendo: "vamos fazer o seu Happycard hoje, senhor?" não é mole! Pelo menos tem o cara da ótica que fica me olhando. É um estímulo, não é? Digo, ele não é lá essas coisas, mas no tipo de vida que eu levo, qualquer estímulo é importante.
Já sinto todo o corpo, me espreguiço, só falta levantar. Essa chuva que não deixa... pensa no carinha da ótica, pensa no carinha da ótica. O despertador! acabaram-se os cinco minutos de enrolação. Levanto, vou ao banheiro, tomo banho (congelo!), me olho no espelho. Mais um longo dia... Visto minha calça jeans e percebo que algumas pedrinhas caíram. Droga, era a calça mais bonita! Dá vontade de nem ir trabalhar depois dessa. Pensa no carinha da ótica e na conta de luz... Visto a camisa da empresa, azul celeste, agora desbotada. É a mesma para todas as meninas, claro! Temos que estar iguais. Passo a maquiagem que todas são obrigadas a usar. Eu gosto de maquiagem, mas a gente é obrigada! A sombra azul tá acabando, passo o que fica nas laterais e na tampa para economizar. Batom melancia, deixa a cara mais viva. Será que ele acha bonito? Perfume, só três gotinhas. Penteio o cabelo e prendo com a piranha azul que combina com a farda.
Agora tenho que comer algo porque não jantei. Minha barriga urra! Geladeira, meio copo de leite e o despertador toca novamente, é hora de sair. Pego a sombrinha e vou à parada de ônibus. A parada fica em frente uma mercearia, compro um biscoito. Será que ele vai falar comigo hoje? Será que vai acontecer alguma coisa hoje?

Continua...

sábado, 21 de agosto de 2010
















Alecrim,
alecrim dourado
que me fez sonhar
em ser um canário.

Foi tua doçura
que falou pra mim
que seria meu sonho
cantar Alecrim

Alecrim,
alecrim murcho
que eu não pude regar
e não cresci com você.

Foi tua beleza
que me rasgou o coração
e a ferida que não fecha
sangrará até que termine a canção

Peixe fora do aquário



É tão angustiante, nauseante! Sentir-se a peça errada, torta... impotente...
E a dor é ainda mais fina quando em um lugar onde, a princípio, sentia-se parte, célula e funcional. Em um lugar antes lar. Hoje, tortura... sacrifício...
É triste, penoso desejar não estar onde deveria. Desejar não ter laços de viscosidade, picotar cordões umbilicais, não ser alfinetado por paredes feitas de seus próprios alfinetes.
Que tudo se exploda!
É lacrimoso, nojoso não ser bem-vindo onde é.

domingo, 25 de julho de 2010

Cultura felina

De dia,
homens e mulheres
de todas as Culturas
vem e vão
entorpecidos por seus livros
ou bíblias
por suas normas gramaticais
ou leis
e pelas cadeiras enfileiradas.
Ninguém os nota
ou fingem não notar
ninguém sabe que
à noite
a Cultura é dos gatos
eles são os donos do pedaço
rasgam livros, leis, gramática e cadeiras
deitam, dançam, flertam e rolam
porque a cultura noturna
é o reino felino